PRESENTE


                              (À Marielle Franco)
                               #mariellepresente

Pausa sob o silêncio,
A vida às vezes grita.

Urra,
Descabela,
Encaracola.

Sob a pausa do silêncio,
Fazem-se ecos dos nãos.

Desafetos,
Desamores,
E seus vãos.

Silêncio sob a pausa,
Repousa o vingador,
Carne no fio da navalha.

Emudece a vida,
Silencia,
Assassina,

Mas com luto a luta não cala.

                                   Fabrícia Valle, 14/03/18

EXTEMPORÂNEA


Sob o silêncio das pausas,
Saudade faz-se nome
Sob a pausa dos silêncios,
Horizontes inventados
Nos incêndios da memória.

Sob o som das pausas,
Silenciosas sabotagens,
O pouso dos sons,
A pausa do tempo.



Esse senhor tão bonito,
Que não tem a cara do filho,
Mas um serei nem terá sido.

QUARTA DIMENSÃO

Nada  constrói-se sem suor.

Nem escapes,
Nem passos,
Nem tempo.

Nada  parte-se em escombros.

Nem on,
Nem off,
Nem fora,
Nem dentro.


O corpo resvala o gesto
                                                Movimentos disruptivos
                                                Memórias retornadas
                                                Disposição dos atos
                                                Ações-estados.

Nem princípio,
Nem começo,
Nem início.
                                             
                                         



ENCANTADORA DE PIPA


Não mastigo ilusões,
Nem devoro nuvens.
Não engulo sapo,
Nem encanto serpentes.
Não bordo a vida,
Nem masco dentes.

 

Mas se você vier
Pro que der e vier
Comigo

 

Sol e chuva não chegam perto
Do meu mundo de sonhos  e infinito.

OUTRAS DANÇAS


                                               (para Cris Santana)

Cama é céu onde escondes
Seu medo
Seus segredos
Seu nome
Seu sobrenome

Chão é seu modo
Seu gosto
Seu gesto
Seu  desgosto

Morada onde revelas a vida
Corpo fugidio
Carne que se consome
Tropeço
Meio-fio


Espalha espelhos pelo carnaval
E eu sou quem não morre nunca.

ROTA

A voz por entre nomes
Suspira silêncio,
Segredo e sobrenome.

Por entre números,
Fere rente a marca,
Enrola-se em cisma,
Briga e fala.

Mas em porto de chegada,
Mar revolto não firma âncora,
Tubarão não repousa morto,
Nem estada levanta voo.

Ave-sim,
Zappeur leve,
Dimensiona passos,
Plano pouso.


Finta,
Esquiva
E engodo.

SUSTENIDO


                                                                 (para Marcos Vinícius Netto)

Não creio em deuses que não dançam,
Que não têm febre,
Não choram com canções,
Não calam vozes,
Não fumam a vida,
Não romantizam relações,
E não amam como fera.

Não creio na flor que desabrocha em machado
O escândalo, tal qual machismo que entope
A artéia estéril da  suposta sanidade.
Que não faz do orvalho cachaça,
Não se embebada com palavras,
Não vai pra rua e bebe a tempestade.

Ah! Maravilhosa gente humana que vive como cães,
Não esconde esqueletos no armário,
Não emerge bulimia dos banheiros,
Não transparece angústia,
Não transveste seus programas
Nesse estar descontente que é do homem

- Silêncios de uma nau,
Vácuo, o momento, o lugar,
A alegre inconsciência -



A consciência dessa incerteza que quer
Qualquer impossível calma,
Qualquer coisa que não vida,
Sendo, em si mesmo, instante,
Todo cais uma saudade de pedra,
Um pouquinho de saúde
E qualquer descanso na loucura.


À BEIRA DO MUNDO

                  [para André (Rapace) Capilé]

Come come dos trópicos,
Devorador de sílaba,
Tributador de escriba,
Rapase de verso branco,
Passa pente de esquina.

Triturador de gesto,
Ciclorama decomposto em verbo,
Rum, rumpí, lê e terreiro yorubanto.


Um quase outro
Um quase nada
Um quase tudo
Um quase

Que não pode ser,
Se é que existe breve,

Canibália da escrita.

PAUSA

                                                                                 (Para Alexandre Faria)

Hei de escrever, no silêncio de todos os batuques,
Sambas marcados no primeiro,terceiro,
No segundo e no quarto tempo.

Hei de escrever com silêncio todas as semibreves,
Mínimas de todas as semínimas,
Colcheias de tantas semicolcheias,
Fusas tontas de muitas semifusas.

Hei de escrever sob silêncio de todo canto
Posto da voz às mãos sobre a mesa,
Desafinadas notas afinadas de tão tortas,
Uníssono dissonante em si
Lá sabe quando dará o tempo agora,


De um gesto que arromba a vida
Atravessa o verso do cotidiano
E faz do amor propósito do desejo.

CORRERIA

Em terra de Saci,
Quem tem uma perna só
Pode até dar voadora.
Mas quem não pode com mandinga
É que não carrega patuá.

Apesar de ser azeda,
Doce quando doce,
Não tenho no nome açucar
Pra ficar me degustando,
Nem tônica pra conversa,
Nem métrica pra poema,
Nem peso pra microfone,
Nem morada pra sua mente.

Império de sal,
Meu gosto é caos,
Língua afiada,quebranto
E repente mandando letra.

Pára o pensamento se passar na minha frente,
Trava os pés no chão pra não ser levado pela correnteza.
Porque feitiço é só pra quem não tem cabeça feita,
Nem malandragem com despacho na encruzilhada.

Sou que nem cabeça d'água,
Navalha afiada na brasa,
Trator em beira de estrada,
Dedo apontado na cara,
Tempestade bebida no gole,
Tufão desgovernado escancarando a porta.

Quero ver chegar como cheguei
Fazer como eu fiz
Ficar como fiquei
Seguir como segui
E ser o "X".

Do chão me levantei,
Das cinzas ressurgi.
Seta solta a riscar ar,
Ventania, revoada
Na missão desesperada
Desse pra sempre caminhar.

BORDADO

Seu cheiro, impregnado na imagem das coisas cotidianas,
Transcria o quase do encontro desse instante quando,
Em sentidos milhares, infinitos lugares.


Cada poro, no corpo um céu
Aflorado em muitos cantos,
Onde o amor se faz

Mais do que estar perto,
Mais do que encontro de pernas,
Mais do que a curta espera que se faz longa
Entre o beijo e o roçar de tonos, seus vãos,
Quimeras do que somos em um eu te amo.

RAIO DA MANHÃ

Quando a cegueira ofusca,
Reluz quebranto de dar dó
Por entres agressivas palavras.


Resvala o que deve e o que não,
Debochadas afrontas,
Num instante quase,
De se dar e não se dar conta.


De que posse é pra Sem Terra,
Trouxa pra fardo de roupa
E sapo pra jibóia,

Como que vivenciar o ilícito
Procurando o silêncio
E um ponto fuga na própria sombra.

RETIRO

Uma sucessão de pedras,
Serpente revolta em acasos,
A vida prepara para a próxima.

Antes ruínas, edifica atos
Antes memória, rasura passado
Antes inércia, antecipa movimento
Antes partida, alcança estada.


Em seus meios e caminhos,
Por entre perdas e espinhos,
Aborda a palavra em silêncio
Quando diz e não quer nada.

O NÚCLEO DURO DO REAL

A cidade chicoteia sonora,
Olhares silencia,
Inviabiliza lugares
E penera amores
Do sim ao não.

A cidade desenvolve
Espaços dissidentes,u
Emaranha ruas,
Paralela ferrovias,
Retilínea curvas
E sussurros brutais.


A cidade rasura
Segrega seres,
Favela na horizontal

E periferia é corpo circunscrito na carne.

SANTO FORTE

                                       (para Ellem Oléria)
Onde a fala ecoa verso,
Exala o gesto em verbo.

Um canto yorubárbaro,
A História subdividida
Em rimas sincopadas
De silenciosos sons.

O que os livros que não narraram,
Omitiram do presente o passado.
Vozes que porfiam vozes
Entre os fios da memória.

INTERVALO DE CINCO

Escritos os sentidos no quando,
Não importa Bárbara nem Ana,
Todos os discos não ouvidos,
Muito menos fulana e beltrana.

No tempo em que cantaram
O queres e o estares sempre afim,
Tínhamos o álibi de sermos infantis
Mas soubéramos depois naquele quando


Escrito em outro plano, vindo de outras esferas,
Que o gostares sabotava primaveras
Em outonais encontros outrora quimeras.


Mas não mudara a vontade
Nesse intervalo de longa espera.

POEMA DA VIRADA


Acusada de todos os crimes,
Sinistra fresta tensa,
O que não tem perdão
É fato consumado
E difere do caso.

Réu confesso do que não houve,
Carrego de imprudência
O encontro de nãos,
A certeza do foda-se,
Do que não, que não,
Que não e não pôde ser.

Que não pode ser
Que não foi
Que não é

Por nada haver.

TAKE BACK

Não se retoma a palavra dita
Eu te amo finca fita
No vento e não volta

Quem perdeu agradeça a quem ganhou
Ontem bem antes de chover parou
Na esquina de qualquer país,
Em qualquer rua de qualquer cidade

Já não há mais nada
Toda palavra guarda
Aquilo que se quer guardar
Toda palavra é quase nada
E guarda sua cilada

ASSOBIO

Na intensidade dos encontros,
Entre paixões tristes,
Entre paixões alegres,
Ser todo em qualquer coisa,
Alguns é são que são 
E nunca vão ser. 
 

Na falta, a medida do gostares,
Todas as cartas de amor ridículas,
Por quês inconclusos, não definitivos,
O que mais vale à pena é estar vivo,
Apesar dessas e outras.


Se alguém se deixa,
Alguém se deita.
Se alguém de deita,
Alguém se deixa.
Se alguém se deitar deixar,
Se alguém se deixar deitar,
Deixa se alguém deitar.
Deita se alguém deixar.
Deixa se deitar alguém.

Deita se deixar alguém
Que o corpo sinta seu tempo,
Que a terra roda redonda em seu eixo,
Mais alto que a cabeça.

O espaço no rodar lento
Sua vida como vertigem
Do tempo a fluir, seu fluir-se,
E menos que existe,
No seu estar só estar-se.

TROPEÇO

Fia, apesar de odiar explicar gíria,
Um dia ter ouvido que as nuvens
Não eram de algodão
E que tinha uma pedra no meio do caminho,
No meio do caminho tinha uma pedra,
Sempre houve a vontade de escrever havia.

Mas, sobretudo, que as pedra é nóis.